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Cobogós
Karina Franchini, CEO da vertical de ensino superior · publicado em 30 de agosto de 2026
Karina Franchini durante a gravação de sua entrevista ao Cobogós

A IA assumiu o trabalho do estagiário. E levou junto o aprendizado.

O estagiário de direito olhava o Diário Oficial, ia ao fórum protocolar petição, lia processo em papel. Era trabalho tedioso — e era ali que ele aprendia.

Por Redação Cobogós6 min de leitura

O estagiário de escritório de advocacia tinha uma rotina que ninguém defenderia como estimulante. Olhar o Diário Oficial linha por linha. Ir até o fórum protocolar a petição. Pegar o processo em papel e ler. Procurar no livro.

Era trabalho repetitivo, e era exatamente ali que ele aprendia o ofício.

"Com a inteligência artificial não existe mais o estagiário para fazer isso", diz Karina Franchini. "Então esses jovens entram no mercado sem essa experiência."

O problema que ela enxerga não é o desaparecimento da tarefa. É o que vem depois: a empresa continua precisando desse jovem, porque sem ele haverá um vazio na linha de sucessão. "Senão eu vou ter um gap de liderança."

Franchini é advogada de formação e nunca advogou — exerceu por cerca de um ano e migrou para a sala de aula. Foi por ali que entrou no mundo corporativo, dando aula de direito, e subiu a estrutura inteira de uma instituição de ensino superior: coordenadora, pró-reitora, reitora. "Passei por todos os cargos. Não tem um que eu não tenha passado."

Hoje é CEO da vertical de ensino superior do grupo SEB, conselheira em grupos educacionais e integra a comissão de ensino jurídico da OAB.

O que a avó ensinou

A veia empreendedora vem de duas mulheres que não tiveram alternativa. A avó se divorciou cedo e passou a vender roupas para sobreviver, até montar uma loja conhecida no interior. A tia, solteira, tocou com o pai a indústria da família em Franca, onde hoje um dos filhos de Franchini é diretor comercial.

"Elas sempre me ensinaram isso: minha filha, você precisa ter a tua vida, você não pode depender de ninguém."

A lição virou cálculo de carreira. Franchini gosta do corporativo e diz isso sem cerimônia, mas trabalha com uma data de validade em mente. "O mercado corporativo ele não é infinito. Em algum momento a gente tem que virar essa página."

A virada veio, na conta dela, por volta dos 50. "Todo mundo fala que vira, e vira mesmo."

O líder que vira professor

A resposta que Franchini propõe para o vazio de formação não é um programa de liderança. É uma mudança de função.

Eu preciso que este líder seja um verdadeiro professor. Eu preciso que essas reuniões sejam salas de aula.

Ela recusa a versão institucionalizada da ideia — o treinamento que entra na pauta de reunião e sai dela sem consequência. "Eu preciso que a educação seja genuína dentro da empresa."

O argumento tem simetria: se o líder precisa ser educador, o professor já é um líder. "Imagina ele liderar uma sala de aula de 50 alunos, 100 alunos."

Sobre as próprias instituições de ensino, é igualmente dura. O ensino superior se afastou do mercado e paga por isso na evasão, que descreve como altíssima. Parte dos jovens está fora da universidade por falta de acesso; outra parte, diz, simplesmente deixou de acreditar no modelo — carteiras enfileiradas, prova que se resolve sozinho. "Mas no mercado de trabalho você não faz nada sozinho. Por que que eu tenho que resolver uma prova sozinho?"

No modelo que construiu para uma instituição em Balneário Camboriú, replicado agora em São Paulo, deixou de usar a palavra aluno. "Eu chamo todos vocês de um time."

A solidão de quem sobe

O projeto mais recente dela nasceu de uma conversa recorrente com uma sócia sobre algo que executivos raramente dizem em voz alta: quanto mais alto o cargo, menos gente com quem falar.

"Não é tudo que a gente consegue falar em casa, não é tudo que a gente consegue falar com os pares." E para mulheres, argumenta, o efeito é mais agudo pela aritmética simples de que quanto mais se sobe, menos mulheres restam — e menos pares existem.

Daí saiu o ELA Lab e um podcast associado, com um pilar que a maioria das empresas não trata: saúde da mulher. Franchini cita a faixa entre climatério, menopausa e pós-menopausa, com esquecimentos e ondas de calor em plena reunião, e o efeito disso sobre a permanência das mulheres no mercado.

O que ela não aceita chamar de vitória

A conversa fecha num ponto que Franchini faz questão de separar. Alta performance existe, e ela não abre mão disso: todo mundo precisa entregar.

O que ela recusa é o preço.

"A alta performance não pode existir à custa de pessoas. Se ele for um resultado às custas de pessoas, isso não é uma vitória."

E o alvo, no fim, é um hábito de gestão que virou paisagem: "Normalizar a exaustão é um crime para a produção e para a evolução daquela empresa."

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