
A empresa não entrevista. A faculdade escolhe por ela.
A companhia se compromete com um número de vagas e recebe o estudante sem processo seletivo, sem entrevista, sem currículo. Quem faz o encontro é a faculdade.
A empresa parceira assume, no começo do semestre, quantos estagiários vai contratar. Depois disso, não faz mais nada. Não abre vaga, não pede currículo, não entrevista ninguém.
Quem escolhe qual aluno vai para qual empresa é a faculdade.
"A empresa não faz processo seletivo. Nós é que falamos para a empresa qual é o aluno que vai trabalhar lá, e a empresa só recebe esse aluno", diz Vera Goulart, diretora acadêmica e sócia da SPTech School.
O momento em que os dois lados descobrem o resultado virou cerimônia. Ao fim do primeiro período, alunos e famílias se reúnem com as empresas contratantes. Ninguém sabe de nada: nem o estudante em que empresa vai parar, nem a companhia quem vai receber. A informação está num envelope, aberto pela família.
Da operadora de call center à compra de uma faculdade
O plano de Goulart era outro. Queria ser professora de história do ensino médio, e diz que no Brasil esse caminho não é simples. Começou a trabalhar cedo, como operadora de call center, e subiu dentro daquele setor até virar executiva.
A empresa em que estava foi vendida. Com o grupo, fundou uma companhia de tecnologia e assumiu a área de recursos humanos. A companhia cresceu, foi comprada por um grupo maior, e ela terminou como diretora de RH para a América Latina.
A educação não saiu do radar em nenhum momento. Com o marido, o também educador Alessandro Goulart, passou cerca de dez anos preparando a virada antes de executá-la. Quando executaram, compraram uma instituição pequena em vez de montar uma do zero — a decisão foi deliberada, para não correrem o risco de um sócio querer vender depois.
O choque veio na sequência. "A gente sempre se considerou bons gestores. Mas não há gestão que consiga salvar um modelo que não está funcionando."
Banana, maçã e uma terceira coisa
O diagnóstico que Goulart levou ao mestrado é o descompasso entre o que a faculdade ensina e o que o mercado pede. Ela explica com fruta.
"Você pergunta para a empresa o que ela quer, ela fala que quer banana. Você vai na faculdade, ela está oferecendo maçã. E você pergunta para o aluno o que ele aprendeu" — e a resposta é uma terceira coisa. "Nada conversa com nada."
O que apareceu na pesquisa, diz, é que as empresas reclamam menos da técnica e mais do preparo socioemocional de quem chega.
Do lado do estudante, ela descreve um retrato que contraria os estudos geracionais. "Eles chegam bastante perdidos. Eles pedem muita orientação, o que é muito diferente do que qualquer pesquisa geracional fala para a gente."
O que ela mudou
A primeira mudança foi trabalhista. Mais de 90% dos professores da escola são de período integral e não têm outro emprego — o oposto da prática comum no ensino superior privado, em que o professor chega só para a aula da noite.
A razão é uma palavra que ela repete: vínculo. "Sem conexão, a gente não acredita que o aprendizado é possível."
O líder é aquele cara que tira sua equipe do ponto A e leva para o ponto B. O professor tem que estar preocupado com isso. Eu não estou ali só para despejar conteúdo nele.
Celular é proibido em sala desde a fundação, e ela faz questão de marcar que a regra é institucional, não escolha de cada professor.
As famílias entram no processo formalmente. São chamadas na primeira semana de aula — inclusive, diz ela rindo, para autorizar a instituição a puxar a orelha —, retornam uma vez por ano e voltam na formatura.
Os números, segundo ela
Goulart apresenta o resultado do modelo em três indicadores, todos referentes à própria instituição: a partir do segundo ano, a evasão fica abaixo de 2%; mais da metade dos alunos já está efetivada no terceiro ano; e no quarto ano, afirma, todos estão empregados — a maioria na mesma empresa onde estagiou.
O desenho financeiro explica parte disso. O aluno não paga o primeiro ano. A partir do segundo, o estágio remunerado custeia a faculdade, o que viabiliza a entrada de estudantes de renda mais baixa sem tornar a escola exclusiva para eles.
O efeito que ela descreve não é sobre o aluno. É sobre a casa dele. "Com muita frequência, o nosso aluno, quando ele é efetivado, ele passa a ser a maior renda da família. Ele muda a classe social da família."
Cita o caso de uma ex-aluna de uma região periférica da zona sul de São Paulo que fez o curso com computador emprestado pela faculdade e hoje ocupa posição sênior em um banco. O irmão e a namorada dela também estudaram lá.
Por que quase ninguém copia
Perguntada se o modelo é replicável, Goulart responde que sim — e explica na sequência por que quase ninguém replica.
"O nosso modelo é um modelo caro." A equipe de formação socioemocional é grande, sênior e cara. Numa instituição privada com investidor e mercado financeiro por trás, argumenta, praticamente não existe espaço para propor aumento de custo, mesmo com a promessa de reduzir evasão adiante. Do outro lado, a instituição pública esbarra na lentidão de mudar.
O recado que ela deixa vai na direção contrária da escala. A escola forma cerca de 500 pessoas por ano, e ela não trata isso como limitação.
"Às vezes a gente fica pensando em criar projetos megalomaníacos, que a gente quer impactar 1 milhão de pessoas em um mês, e deixa de fazer uma coisa que parece menor."

